SER, HABITAR E IMAGINAR

"Habitar significa deixar rastros." afirma Walter Benjamin, para quem a arquitetura é a forma de arte mais antiga, uma vez que a necessidade de abrigo antecederia todasas demais expressões. Este é o tema de Ser, Habitar e Imaginar, uma mostra coletiva de artistas brasileiros emergentes. Qual a relação entre os rastros que deixamos ou observamos nos arredores das cidades, ou em interiores que modelam nossa forma de presença no mundo? Ao mesmo tempo, qual a relação entre este mundo que habitamos e o ato de imaginar?

A exibição acontece em dois andares. No primeiro, as obras remetem à conexão ontológica e social, como a noção de um lugar habitado a partir de vestígios de arquiteturas, e também de espaços simbólicos representados em diversos meios. O conceito habitar compreende a carga simbólica de certos lugares marcados pela história e também de outros rituais presentes nestes lugares como os mercados populares. Embora predominem as explorações sobre a cultura urbana, o projeto também elenca o habitar de populações indígenas, como a Aldeia Kuikuro, no Mato Grosso, Brasil.

No segundo andar, as obras se desdobram entre universos fantásticos e poéticos. Pinturas e trabalhos gráficos contendo universos interiores comoventes e emotivos, nos quais prevalecem imagens de crianças em espaços conectados à memória.

Entre habitar e imaginar, há uma transição de mundos reais a possíveis, com exploração de lugares geográficos que nos marcam, mas também imergindo em espaços íntimos onde, para além do belo ou do terrível, nos deparamos com o incrível potencial humano de nos reinventarmos.

Ana Calzavara, fotografa o interior e o exterior, inabitados ou em estado de suspensão, usando técnicas de cor, estrutura e chiaroscuro para criar imagens que devolvem à arquitetura o nosso olhar de apreciação dos lugares que habitamos.

Marcelo Macedo recupera fragmentos de objetos em desuso, como madeiras de objetos ou lugares, para a série geométrica Grande Rede, que por sua vez é marcado pela influência que o construtivismo teve na arquitetura brasileira dos anos 50.

Liene Bosquê explora práticas diversas da arquitetura como arquivos da memória coletiva ou até mesmo vestígios íntimos. As fotos de sua série Legado documentam a instalação efêmera que fez com fita adesiva, desenhando móveis nos espaços vazios do sítio de sua avó em Garça, logo após o seu falecimento. O gesto conceitual, que remete Joseph Kosuth, ganha uma conotação íntima; podendo também ser repetido incessantemente em outros espaços, transformando-se no nosso eco. Os tijolos de sua obra AMEZ foram produzidos com látex e evocam a mais antiga igreja afro-americana em Syracuse, com materiais frágeis aplicados sobre a superfície atual da construção para capturar resíduos, criando, literalmente, traços da identidade de um lugar chave da história da cidade. Transformado em arte, o local histórico, antes frágil, adquire uma nova durabilidade.

Através das fotografias de piscinas vazias ou cheias, Maritza Caneca registrou vários lugares ao redor do mundo. Depois de contemplar sua própria memória no fundo de uma piscina abandonada na casa de seus avós, ela criou um diário de registros de água, refletindo momentos da história de cada lugar. Já a relação de Antonio Bokel com os vestígios é construída em composições nas quais a justaposição e o hibridismo das fontes acabam unificando a evocação de construções urbanas e da natureza, que modo que o grafite "mancha" as paredes. A combinação de madeira crua, gestos gráficos expressionistas e os traços arquitetônicos também nos relembram o modo como Niemeyer e Burle Max transferiram as formas da natureza às suas próprias construções. O tecido urbano, que se abre em camadas de imagens com enorme liberdade gestual, abriga o seu trabalho e constrói parte de nossa memória de paisagens contaminadas pelo caos.

Mano Penalva evoca a grade que, segundo Lucy Lippard, formara a matriz da modernidade. É com um senso de humor iconoclasta característico que ele emprega - com a técnica readymade - estantes usadas por vendedores de rua para colocar os produtos à mostra. Assim, ele mantém esculturas de baixo custo e sobretudo fáceis de transportar, como uma versão da mala duchampiana, que enaltece os sonhos engrandecedores da modernidade e torna-se um gesto de apropriação da estética popular. Esta também é a fonte de suas viagens pelos mercados e fábricas da Cidade do México para coletar imagens da sexualidade das estátuas e observar sua relação com o privado. Levou mais de quinhentas fotos de "roupas dobradas, lonas de mercado e gestos dos trabalhadores" cobertos de amarelo, como as últimas páginas de uma lista telefônica e das peles de uma cidade. Como estrangeiro, ele registra espaços de comércio informal como um modo de ser e habitar, retratando a sobrevivência através da permuta de produtos e outros modos de coexistência da arquitetura.

As fotografias e desenhos em papel em diálogos que Ivonete Leite e Daniel Taveira tiraram em suas viagens; Liene Bosquê com suas performances e Michelle Rosset construindo em superfícies palpáveis que incitam o desejo palpável, estão reunidas em uma sala onde a relação é explorada entre a superfície das paredes, os tecidos, o corpo humano, a história e a mesma geografia da terra que habitamos. Leite apresenta fotografias aéreas do sítio arqueológico de Masada, um dos lugares simbólicos mais relevantes, responsável por representar a resistência de um povo e a defesa da autodeterminação. Um lugar chave para os Judaicos de fé, Taveira retrata as mãos de um homem religioso rezando no festival anual de Timkat, "uma celebração cristã ortodoxa da Epifania - referência ao batismo de Jesus no Rio Jordão". Os tecidos que cobrem a peça funcionam como um abrigo para o sagrado.

A obra exposta de Mariza Formagginni consiste de uma pequena seleção de fotografias tiradas durante uma travessia que levou cinco anos. Investigando, como parte de um projeto multidisciplinar, as rotas, os rituais e os usos populares de flauta em regiões diversas do Brasil. Selecionamos, entre centenas, imagens que revelam aspectos minuciosos do habitar na reserva indígena do Alto Xingu: a integração entre corpo e natureza, os costumes ocidentais e rituais ancestrais se revelam nesta série documental, cuja virtude não é o momento perfeito e sim o contrário, o registro do habitual que dá forma a uma ontologia própria.

No segundo andar da mostra, a relação com o ser - não menos afetiva - se apresenta a partir da conjugação do verbo "imaginar" em espaços conectados à memória da infância, como num espaço vago, mostrando lembranças ofuscas da infância de Mauricio Mallet. Entretanto, não limitada à imagem superficial do paraíso perdido: contém a profundidade das contradições humanas; um oceano no qual às vezes flutuamos sozinhos, como no trabalho de Karla Caprali, que não tem medo de expor em suas peças uma verdade ardente. A violência afetiva ou política também se faz espreita em alguns de seus bordados com meninos e meninas de personagens rodeados pelo desassossego do mundo.

Os personagens jovens desenhados a tinta por Thainan Castro sobre papel possuem uma infinita delicadeza; pulam corda, empurram uma roda e brincam com a areia nas linhas de poesia que não podem - e nem precisam - ser lidas, e sussurram um segredo fora do nosso alcance. Mateu Velascotambém pinta o mundo das crianças, sempre com uma enorme nuvem de caos no lugar de suas cabeças, onde paira uma infinidade de pequenos objetos. Frequentemente, figuras como coelhos ou peixes incorporam-se a uma iconografia que gira ao redor da urgência - ou da impossibilidade - de comunicar-se com os cosmos dentro da mente alheia. O que Velasco, Thainan e Mallet têm em comum é insinuar a urgência da imaginação para transitar no labirinto do mundo em que vivemos.

Por: ALUNA CURATORIAL COLLECTIVE